08/2013
Sempre fui menina muito admirada com o fantástico. Qualquer universo que não fosse o que estava imediatamente à frente de meus olhos me era maravilhoso e interessante. Talvez porque não conseguisse fazer das crianças que corriam à minha frente amigos, sempre velozes à minha frente. E eu sempre tive o passo tranquilo, até meio lesado. Vagarosamente processando informações, isto é, quando era capaz de processá-las. Aquele mundo humano não me era inteligível. Então recorria às fabulas. Este meu prelúdio que alude a uma infância tímida e fantasiosa é demasiado comum. Não me acho indivíduo que se desenvolveu excepcional por conta dele. A verdade é que venho dizer-lhes que, com espanto e horror, percebi que compreenderia ainda melhor a mitologia e as fábulas quando conhecesse mais do mundo real – do mundo adulto. Vou me abster de teorizar profundamente acerca do discurso narrativo, para que me seja possível desenvolver uma narrativa própria. Formalistas russos, Barthes e Foucault serão deixados de lado. Se é que a literatura não referencia a vida, e na verdade apenas se autoreferencia, meu próprio conto desmoronaria internamente. A questão é que fui eu quem desabou.
(Enquanto andava vagarosa, acompanhava os passos da prudência de Prometeu, cautelosamente planejando o meu caminho. Tentando acompanhar o ritmo dos demais, acabei deixando-me levar por Epimeteu. Invejei todas as qualidades dadas aos animais por ele e me permiti ser tomada pelo instinto pela primeira vez em minha vida...)
Uma fábula que não fui capaz de compreender inteiramente quando criança foi a da caixa de Pandora. Talvez porque não concordasse com a represália à curiosidade, ou talvez porque não conseguisse entender muito bem como todos os males do mundo couberam em uma única caixinha. Ainda criança sabia muito bem que o mundo possuía males suficientes para cobrir toda a superfície terrestre. Obviamente, meu primeiro erro foi fruto de não ter experiência de vida suficiente para poder compreender que a ignorância, em alguns casos, é, de fato, bênção. O segundo erro, é claro, foi o de interpretar a caixa de Pandora como sendo, objetiva e fisicamente, uma caixa. Cresci adolescente e jovem adulta contrária à autopreservação, para perceber pouco depois que o enrijecimento de meu espírito, a mágoa e a amargura acumuladas por tantas verdades não eram de todo algo positivo. Sim, eu quis ser iludida por mais tempo. Quis que mentissem para mim. Sussurros gentis em meus ouvidos, desembocando de lábios dóceis e traiçoeiros. Quisera não saber de sua traição. Que a caixa não tivesse sido aberta, escancarada, arremessada contra mim: direto em meus olhos. Fora da caixa a verdade era como ácido corrosivo, dissolvendo todo o amor que já armazenara em meu peito: todo o amor que um dia não coube dentro de mim, que foi professado em longas conversas pesarosas, em coreografias nos dias chuvosos, na mão que adormeceu agarrando firmemente a minha e recusou-se a me deixar ir.
Traição. Essa é a única palavra que me vem à cabeça. Que os eventuais leitores ou leitoras desse conto enfadonho me perdoem. Essa é uma história comum. Venho mais uma vez fazer uma confissão no único lugar que me é reservado para tal, visto que não piso em uma Igreja desde pequena e não possuo dinheiro para o psicólogo. Além disso, meus amigos já se cansam de escutar meu mesmo lamento. Conto então com a compreensão de vocês, pois que fui traída e agora desejo compartilhar o que eu própria fui capaz de compreender com isso. Finalmente entendo o mito de Pandora. Minha inocência foi usurpada completamente pela verdade, cruel e impiedosa. E nem fui eu quem optou por abrir a caixa, então, pergunto aos deuses inclementes: mereci essa punição?
domingo, 9 de março de 2014
I love your laugh too.
Baby, I'm lost for words. With your sweet whispers in my ears, you blew away every inch of rationality I still had. Every inch of incredulity, of skepticism. We don't need it as long as we have each other. Take me here, however you like. Von hinten nach unten. Our bodies shall not be separated again. Let's get married today, let's make love 'til dawn - 'til we make children of our own.
quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014
Meu amor,
Peço desculpas se te chamo de amor precipitadamente. É que tenho alma de poeta e nosso tempo é curto. Me dou a liberdade de chamar-te assim em hipótese. No papel, em segredo, em saudade antecipada. Enquanto te aperto com braços e pernas e digo que não vou te deixar ir. É que me sinto humana como nunca antes.
Gracia
Minha amiga Karla me conheceu por apenas um dia, mas conheceu-me bem. Acho que porque percebemos o que tínhamos em comum: todas as más escolhas, a inquietude, os arrependimentos e a insegurança inevitável de quem se culpa por tudo de errado que ocorre em nossas vidas. Karla foi uma das conselheiras mais infalíveis que conheci em minha vida: em apenas poucas horas de conversa foi capaz de desferir os golpes mais fatais em algumas de minhas certezas. Era dotada de uma honestidade hoje em dia incomum até nas minhas amigas mais próximas. Talvez porque minhas amigas mais próximas não tenham tanta coragem de dizer a verdade na minha cara...
Decidi relatar a ela que certa feita, eu e uma amiga minha conhecemos um rapaz. Estivemos a conversar com ele por muito tempo, temas interessantes e bem humorados. O rapaz era interressante, muito simpático e engraçado. Não quero dizer com isso que era feio. Não era feio, não era gordo, não tinha mal cheiro. Contudo, não era dotado daquela beleza óbvia que sempre buscamos todos os dias por razão qualquer - ou sem razão alguma. Ah, a consciência de minha superficialidade nunca ajudou-me a superá-la! Mas enquanto tivermos nossa sociedade para culpar por isso, teremos a consciência limpa. Eu disse a Karla, o rapaz interessou-me, mas não o suficiente naquele momento. Tive um interesse leve e não professado, o tipo de interesse desinteressado que tenho por todas as coisas. Sou preguiçosa, você vê. Digo preguiça porque é uma simplificação do medo, medo que sinto todos os dias - de tudo e de todos. Pequena e limitada, essa é a verdade sobre mim.
Decidi seguir o fluxo habitual de escolhas fáceis: deixei o rapaz a conversar com minha amiga e fui arranjar alguém menos simpático que não pudesse interessar-me por completo nem durante mil anos de conhecimento. É mais fácil, muito mais fácil. Mas não parei nem por um momento para pensar que o rapaz simpático pudesse se interessar por minha amiga. Aí que veio o tapa na minha cara em forma de gargalhada:
-Mas como você é egocêntrica! Não acredito no que acabou de me contar, ainda mais com essa visão das coisas!
Karla tinha essa risada cheia e sonora, do tipo capaz de preencher um aposento de alegria. Eu sorri com o canto do lábio, um pouco culpada. Sabia dessa verdade, mas não era capaz de aceitá-la.
-Não é? Achar que isso tudo é sobre mim... Que eles estão agora felizes porque eu nobremente me retirei de cena! Sou mesmo ridícula, e não me canso ser assim! - então rimos juntas. O comentário foi irônico e de certa forma amargo, mas não sentia a profunda tristeza que deveria sentir com tão trágica história. Expliquei a ela o porquê: - Vou continuar sendo egocêntrica, já que você já o sabe. Creio que também haja um pouco de identificação entre nós, então você poderá entender. A felicidade dos dois não me atinge. Será que você vai dizer que estou em negação? Obviamente, eu gostaria de ter uma felicidade semelhante para mim, algum dia. Mas seria eu capaz de lidar com tamanha perfeição? A meus olhos, são ambos completamente perfeitos - tanto separadamente quanto juntos. Amo-os tanto, que não acho que seja capaz de invejá-los. Não de uma forma azeda, corrosiva. Não consigo me ver como um par complementar a nenhum dos dois. Sei que me causará grande sofrimento quando os dois tiverem que se separar... E espero poder ajudá-los de alguma forma. Não sei explicar. Mas grande parte desse pensamento é impulsionado por meu próprio egocentrismo, e pela minha auto-depreciação. Vê bem, eu não acho que conseguiria aguentar tamanha felicidade. Porque será que me conformo à solidão com esse argumento tão pobre?
Karla não estava mais com um semblante tão espirituoso. Deu um meio sorriso cabisbaixo e um demorado gole em sua cerveja. Acho que ela se conformaria à felicidade facilmente, se assim o fosse possível. Era uma romântica incurável. Eu sabia também que eu mesma não era tão grande engima: tudo se traduzia em meu egoísmo infantil. Acreditava ser capaz de heróica abnegação, talvez proveniente de uma culpa imensurável que fora gerada pela minha educação católica. Mas era também uma romântica, e esse era meu mistério e maior segredo.
Partimos para outras anedotas. Pobre Karla, estava com um coração partido. Daqueles que ainda está vedado e imutável: sua afeição permanecia intacta, mas havia sido abandonada e não entendia o porquê. Ah, com essas coisas a gente nunca sabe direito o porquê..., eu diria suspirando. Se é uma falta de querer, se é uma falta de gostar, se a distância da Alemanha à Espanha é realmente tão imbatível... Da Alemanha ao Brasil era ainda maior, e eu conhecia gente que a tinha vencido. Seria um querer maior, gostar maior... um amar?
Karla se deu por vencida, com seus supercílios limpou aquela tristeza residual em seus grandes olhos azuis, levou mais um gole de cerveja aos lábios e sorriu:
-Eu já desisti de entender os homens. - concluiu de maneira simplista.
Eu sorri e tomei sua mão na minha. Mais uma querida amiga, dentre tantas, que pensava que era culpa dos homens e uma diferença invencível entre gêneros. Só sentia compaixão por ela. Meu superego superfeminista intersubjetivo obviamente não poderia tomar partido nesse argumento.
-Antes fosse esse o problema, Karla. Eu gostaria mesmo, antes de tudo, era de entender a mim mesma.
(Se é uma falta de querer, uma falta de gostar, uma incapacidade de amar).
Mas eu tinha essa vontade absurda de falar com ele. Agora que já não tínhamos mais tempo. Agora que eu ia partir no dia seguinte. Sim, no limite as coisas ficam mais intensas. Não queria ser escrava do desespero humano. Se pelo menos eu fosse uma pessoa espiritual, se eu pudesse depositar toda essa energia em alguma crença... Mas eu tinha em mim o fogo do diabo.
-Não sei te aconselhar mais do que isso. - disse ela, preocupada - Diria para falar com ele, porque sou uma romântica. Acho que temos que dar tudo de nós.
Hm, sim, eu devia falar com ele. Ir embora com aquilo entalado na garganta não fazia sentido. Mas eu sabia o que ele diria, sabia que estava trabalhando demais, que sempre trabalhava tanto e que não tinha tempo sequer pra descansar. Não me deixava irritada o fato de que ele não tinha tempo pra mim. Nosso possível amor fora abortado desde o princípio. Decidimos contar com o acaso, e poderia ser que ao final da gestação fosse um natimorto. Para nós a vida era uma grande série de apostas, cadeias de encontros e desencontros. A distância era demais, ainda mais quando não sabíamos o que sentíamos. Eu, contudo, sentia a possibilidade. E isso era o que mais me deixava inquieta. Havia uma possibilidade, de que daquele homem eu realmente gostasse, de que com ele eu pudesse acalmar a confusão que sempre fora minha essência.
Havia uma possibilidade no impossível.
E eu o admirava mais do que a qualquer outro, porque era um adulto. Porque nunca havia me relacionado com um adulto antes, só com moleques. Com moleques de quase trinta anos. Mas como propor tamanho absurdo a um adulto? Como poderia implorar para que ele largasse suas obrigações por causa de um capricho fútil? Deveria eu também ser adulta, para que ele me admirasse também.
-Por isso nós não vamos acontecer. - conclui, enfim. - Falta loucura em nós. Falta o desvario de quem não tem nada a perder, de quem está disposto a se atirar ao precipício. Mas nós não somos abismo, não queremos consumir um ao outro. Talvez por isso nosso afeto resista ao tempo e à distância. Não sei dizer ainda.
Karla insistia: Fale com ele. Você precisa saber.
Mas a vida havia me ensinado: não havia nada que era estritamente necessário saber. Não precisava saber que meus dois melhores amigos haviam, no passado, me traído. Preferia continuar com a cega ilusão de que nós três éramos felizes e intocáveis. Quando não era a ilusão preferível à realidade? Platônica, platônica. Nasci no berço de Platão. Demorei quase duas décadas para me libertar disso, e ainda não me libertara completamente. Só quando fodia, só quando enchia a cara. Só em transe ou embriagada me libertaria de mim mesma.
Não precisava saber porque eu já sabia. Sabia, porque havia sido imensamente difícil me despedir no dia anterior. Não queria me despedir novamente. Mas mandei uma mensagem mesmo assim. "Se vier a Lisboa, me avise". Essa mensagem continua não respondida.
Por falta de querer, de poder, de amar?
Não sabia e já não me importava. Agora ele e Karla seguiam suas vidas em Barcelona, e eu já estava de volta em Portugal. A distância poderia ser facilmente superada. Mas a distância era só um detalhe.
Decidi relatar a ela que certa feita, eu e uma amiga minha conhecemos um rapaz. Estivemos a conversar com ele por muito tempo, temas interessantes e bem humorados. O rapaz era interressante, muito simpático e engraçado. Não quero dizer com isso que era feio. Não era feio, não era gordo, não tinha mal cheiro. Contudo, não era dotado daquela beleza óbvia que sempre buscamos todos os dias por razão qualquer - ou sem razão alguma. Ah, a consciência de minha superficialidade nunca ajudou-me a superá-la! Mas enquanto tivermos nossa sociedade para culpar por isso, teremos a consciência limpa. Eu disse a Karla, o rapaz interessou-me, mas não o suficiente naquele momento. Tive um interesse leve e não professado, o tipo de interesse desinteressado que tenho por todas as coisas. Sou preguiçosa, você vê. Digo preguiça porque é uma simplificação do medo, medo que sinto todos os dias - de tudo e de todos. Pequena e limitada, essa é a verdade sobre mim.
Decidi seguir o fluxo habitual de escolhas fáceis: deixei o rapaz a conversar com minha amiga e fui arranjar alguém menos simpático que não pudesse interessar-me por completo nem durante mil anos de conhecimento. É mais fácil, muito mais fácil. Mas não parei nem por um momento para pensar que o rapaz simpático pudesse se interessar por minha amiga. Aí que veio o tapa na minha cara em forma de gargalhada:
-Mas como você é egocêntrica! Não acredito no que acabou de me contar, ainda mais com essa visão das coisas!
Karla tinha essa risada cheia e sonora, do tipo capaz de preencher um aposento de alegria. Eu sorri com o canto do lábio, um pouco culpada. Sabia dessa verdade, mas não era capaz de aceitá-la.
-Não é? Achar que isso tudo é sobre mim... Que eles estão agora felizes porque eu nobremente me retirei de cena! Sou mesmo ridícula, e não me canso ser assim! - então rimos juntas. O comentário foi irônico e de certa forma amargo, mas não sentia a profunda tristeza que deveria sentir com tão trágica história. Expliquei a ela o porquê: - Vou continuar sendo egocêntrica, já que você já o sabe. Creio que também haja um pouco de identificação entre nós, então você poderá entender. A felicidade dos dois não me atinge. Será que você vai dizer que estou em negação? Obviamente, eu gostaria de ter uma felicidade semelhante para mim, algum dia. Mas seria eu capaz de lidar com tamanha perfeição? A meus olhos, são ambos completamente perfeitos - tanto separadamente quanto juntos. Amo-os tanto, que não acho que seja capaz de invejá-los. Não de uma forma azeda, corrosiva. Não consigo me ver como um par complementar a nenhum dos dois. Sei que me causará grande sofrimento quando os dois tiverem que se separar... E espero poder ajudá-los de alguma forma. Não sei explicar. Mas grande parte desse pensamento é impulsionado por meu próprio egocentrismo, e pela minha auto-depreciação. Vê bem, eu não acho que conseguiria aguentar tamanha felicidade. Porque será que me conformo à solidão com esse argumento tão pobre?
Karla não estava mais com um semblante tão espirituoso. Deu um meio sorriso cabisbaixo e um demorado gole em sua cerveja. Acho que ela se conformaria à felicidade facilmente, se assim o fosse possível. Era uma romântica incurável. Eu sabia também que eu mesma não era tão grande engima: tudo se traduzia em meu egoísmo infantil. Acreditava ser capaz de heróica abnegação, talvez proveniente de uma culpa imensurável que fora gerada pela minha educação católica. Mas era também uma romântica, e esse era meu mistério e maior segredo.
Partimos para outras anedotas. Pobre Karla, estava com um coração partido. Daqueles que ainda está vedado e imutável: sua afeição permanecia intacta, mas havia sido abandonada e não entendia o porquê. Ah, com essas coisas a gente nunca sabe direito o porquê..., eu diria suspirando. Se é uma falta de querer, se é uma falta de gostar, se a distância da Alemanha à Espanha é realmente tão imbatível... Da Alemanha ao Brasil era ainda maior, e eu conhecia gente que a tinha vencido. Seria um querer maior, gostar maior... um amar?
Karla se deu por vencida, com seus supercílios limpou aquela tristeza residual em seus grandes olhos azuis, levou mais um gole de cerveja aos lábios e sorriu:
-Eu já desisti de entender os homens. - concluiu de maneira simplista.
Eu sorri e tomei sua mão na minha. Mais uma querida amiga, dentre tantas, que pensava que era culpa dos homens e uma diferença invencível entre gêneros. Só sentia compaixão por ela. Meu superego superfeminista intersubjetivo obviamente não poderia tomar partido nesse argumento.
-Antes fosse esse o problema, Karla. Eu gostaria mesmo, antes de tudo, era de entender a mim mesma.
(Se é uma falta de querer, uma falta de gostar, uma incapacidade de amar).
Mas eu tinha essa vontade absurda de falar com ele. Agora que já não tínhamos mais tempo. Agora que eu ia partir no dia seguinte. Sim, no limite as coisas ficam mais intensas. Não queria ser escrava do desespero humano. Se pelo menos eu fosse uma pessoa espiritual, se eu pudesse depositar toda essa energia em alguma crença... Mas eu tinha em mim o fogo do diabo.
-Não sei te aconselhar mais do que isso. - disse ela, preocupada - Diria para falar com ele, porque sou uma romântica. Acho que temos que dar tudo de nós.
Hm, sim, eu devia falar com ele. Ir embora com aquilo entalado na garganta não fazia sentido. Mas eu sabia o que ele diria, sabia que estava trabalhando demais, que sempre trabalhava tanto e que não tinha tempo sequer pra descansar. Não me deixava irritada o fato de que ele não tinha tempo pra mim. Nosso possível amor fora abortado desde o princípio. Decidimos contar com o acaso, e poderia ser que ao final da gestação fosse um natimorto. Para nós a vida era uma grande série de apostas, cadeias de encontros e desencontros. A distância era demais, ainda mais quando não sabíamos o que sentíamos. Eu, contudo, sentia a possibilidade. E isso era o que mais me deixava inquieta. Havia uma possibilidade, de que daquele homem eu realmente gostasse, de que com ele eu pudesse acalmar a confusão que sempre fora minha essência.
Havia uma possibilidade no impossível.
E eu o admirava mais do que a qualquer outro, porque era um adulto. Porque nunca havia me relacionado com um adulto antes, só com moleques. Com moleques de quase trinta anos. Mas como propor tamanho absurdo a um adulto? Como poderia implorar para que ele largasse suas obrigações por causa de um capricho fútil? Deveria eu também ser adulta, para que ele me admirasse também.
-Por isso nós não vamos acontecer. - conclui, enfim. - Falta loucura em nós. Falta o desvario de quem não tem nada a perder, de quem está disposto a se atirar ao precipício. Mas nós não somos abismo, não queremos consumir um ao outro. Talvez por isso nosso afeto resista ao tempo e à distância. Não sei dizer ainda.
Karla insistia: Fale com ele. Você precisa saber.
Mas a vida havia me ensinado: não havia nada que era estritamente necessário saber. Não precisava saber que meus dois melhores amigos haviam, no passado, me traído. Preferia continuar com a cega ilusão de que nós três éramos felizes e intocáveis. Quando não era a ilusão preferível à realidade? Platônica, platônica. Nasci no berço de Platão. Demorei quase duas décadas para me libertar disso, e ainda não me libertara completamente. Só quando fodia, só quando enchia a cara. Só em transe ou embriagada me libertaria de mim mesma.
Não precisava saber porque eu já sabia. Sabia, porque havia sido imensamente difícil me despedir no dia anterior. Não queria me despedir novamente. Mas mandei uma mensagem mesmo assim. "Se vier a Lisboa, me avise". Essa mensagem continua não respondida.
Por falta de querer, de poder, de amar?
Não sabia e já não me importava. Agora ele e Karla seguiam suas vidas em Barcelona, e eu já estava de volta em Portugal. A distância poderia ser facilmente superada. Mas a distância era só um detalhe.
quarta-feira, 15 de janeiro de 2014
Noite polar
Nestes teus olhos árticos que se recusam a me fitar, eu ousaria habitar. Inóspito, silencioso. Discreto, vacilas, mas te calas antes de poder qualquer coisa me confessar. Eu sigo em minha verborragia. Ébria, derramo besteiras nessa mesa de jantar. Mas como é que não te importas? Sempre tão sério, sóbrio quando em tua terceira dose de whisky. Vejo que abres um pequeno sorriso, inclusive no olhar. Com a ponta dos dedos, acaricia o meu queixo brevemente. Olho-te de maneira cortante: Queres que eu me cale, por acaso? Tu sorris maior, queres continuar a me ouvir. Eu floresço frente a tal gesto. Professo qualquer estupidez que me venha à mente. Parece ser nosso código. Parece um perfeito entendimento – ainda que seja apenas de momento, por acaso. De repente, te vejo espontâneo. Espontâneo como jamais foste. Abraçamo-nos em silêncio. Perguntas onde quero ir. Não sei dizer, a lugar nenhum. Abracemo-nos em silêncio, nesse escuro escarlate, com a música de fundo fading out ao som de tua respiração. Como é que me acalmas deste tanto? Me acalenta neste imperdoável inverno, eu suplico silenciosamente, com desejo condensado na minha respiração entrecortada. Não quero um grande amor, quero um grande amigo. Quero que sufoques minha solidão com estes braços firmes que agora repousam sobre meus ombros. Tão só quando comecei a partilhar esse sono infindável contigo é que tornou-se ele tranquilo. Tuas mãos em meus cabelos e meu sorriso contra o travesseiro. Tua sugestão silenciosa, minha preguiça esparramada com naturalidade em teu colchão. Ecoam os sinos das Grandes Esperanças, minha música favorita como despertador – the grass was greener, I know you like to think so when you talk about your lovely Brazil -, ovos fritos e café. Teu péssimo e encantador sotaque de inglês. Tuas tentativas falhas de falar português. Não quero um grande amor, quero um lar. Abrigo no exílio. Acolhe-me em teus braços enquanto podemos, não fujas. Te peço, em silêncio, no escuro. Antes de tudo és meu amigo. Permaneça!, ah, enquanto podes. Permaneça para que pereças em meus braços, na madrugada, no amanhecer. E me despertas. Para uma vida que já estava esquecida. Desesperançada. Para que possa encontrar confiança novamente em teus braços: renascida. Plácida. Imensamente agradecida. Em calor que tanto me faz falta. Retido em meus seios, nas pontas de meus dedos gélidos, na casca de meus lábios secos. E que palpita em meu coração. No que também opina o teu coração, frente ao estetoscópio de meu ouvido repousado no teu peito.
Schmetterling
Por falta de palavras,
não te escrevo um poema.
Suspiro, beijo teus lábios,
repouso em teus ombros.
Paro e penso
Banal,
poderia ser qualquer uma
suspirando
beijando teus lábios
e repousando em teus ombros
quaisqueres suspiros,
lábios e ombros.
Mas é que os seus
Encaixam
Acolhem
Fazem sentido.
Não te dou belas palavras,
por agora.
Mas te dou um singelo sorriso,
que não posso evitar ao suspirar,
beijar teus lábios
e repousar em teus ombros.
Mas se insisto e te escrevo tal poema
Singelo e banal
E muito sincero
É que mereces um poema, ao menos
Por teus beijos que abrem meus sorrisos
Teus ombros que acolhem meus pensamentos pesados
Teus olhos que me arrancam suspiros.
não te escrevo um poema.
Suspiro, beijo teus lábios,
repouso em teus ombros.
Paro e penso
Banal,
poderia ser qualquer uma
suspirando
beijando teus lábios
e repousando em teus ombros
quaisqueres suspiros,
lábios e ombros.
Mas é que os seus
Encaixam
Acolhem
Fazem sentido.
Não te dou belas palavras,
por agora.
Mas te dou um singelo sorriso,
que não posso evitar ao suspirar,
beijar teus lábios
e repousar em teus ombros.
Mas se insisto e te escrevo tal poema
Singelo e banal
E muito sincero
É que mereces um poema, ao menos
Por teus beijos que abrem meus sorrisos
Teus ombros que acolhem meus pensamentos pesados
Teus olhos que me arrancam suspiros.
"I like him", she thought as she held him very tightly. The metro was shaking briskly and she was trying to avoid falling down. With her face against his chest, she couldn't see his face. Peaceful, she closed her eyes. He could be anyone else in the world. She would possibly forget his face when they stopped seeing each other and lost touch. "Maybe it's not about him. Maybe I just like having something to hold onto". She looked up, he smiled. Very simply, automatically responding to her quick glance. He kissed her forhead softly and said nothing. What was he seeking in her?, she wondered. Did he feel as comfortable, peaceful and calm? She closed her eyes and hoped that he did. The train stopped at her station and he got out in order to walk her home. "I don't want to say goodbye", she realized suddenly - and it was the only certainty that she had. Yet the deadline for their ending seemed to be what held them together so closely. Could she put that into words? She didn't want to, she didn't want the separation to become real and the distance to become unsurmountable. She wanted to keep holding on.
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